sexta-feira, 31 de julho de 2009

A CIDADE DE PEMBA E A BELA BAÍA

Pemba é, de moda recente, também dita de Bela Baía. Já deu lugar a várias mudanças de nome e das referências dos cartazes das conferências que se vão sucedendo, para bem da ociosidade do sector hoteleiro. Mas será preciso separar as duas coisas: a cidade de Pemba e a Bela Baía, antes chamada de Baía de Pemba.

A Baía de Pemba tem sido muito propalada como sendo a terceira maior baía do Mundo, do clube das 10+, dizem até. Vai daí o Bela. Fui verificar: google earth, google search, em português e inglês, wikipedia, etc. Nada! Finalmente fui medir. Rezam os resultados a Baía de Bengala como a maior, a de Hudson como a 2ª, e depois uma série que inclui a de S. Francisco (USA), a de Port Phillip (Austrália), a de Guanabara (Brasil, RJ). Nada de Pemba. Numa das respostas aparece até a Baía de Maputo, mas nada de Pemba. Acabei por descobrir que a referência a esta grandiosidade só aparece nos panfletos turísticos de divulgação do destino e nalguns documentos igualmente concernentes à promoção de projectos turísticos, incluindo o clube das mais belas. Não consegui identificar a origem da informação. Portanto, esse campeonato deve ter regras próprias que a gente desconhece. E é recente. O que me continua a surpreender é que ninguém se dê ao trabalho de verificar se estas coisas que nos vão dizendo – não se sabe quem – são verdade. Não sendo, corremos o risco de sermos ridicularizados, o que é, no mínimo, triste, no máximo, uma vergonha.

A Baía de Pemba tem cerca de 55 quilómetros de perímetro, 18 no sentido norte-sul, e 10 no sentido leste-oeste. Tem uma área de cerca de 130 km2 e a sua forma assemelha-se a um rim. É sem dúvida uma das grandes baías do mundo e uma das maiores de África, dependendo de até que ponto se leve a rigor a definição de “baía”, ou seja, se consideramos nesse campeonato a Baía de Baphin, a de Bengala, a de Hudson no Canadá, a False Bay sul-africana, a de Arnhem ou a Shark Bay na Austrália, etc. E ainda todas as outras a que, na América Latina (Argentina e Venezuela em particular) levam a designação de golfo – onde acaba a baía e começa o golfo é uma fronteira difícil de estabelecer, pois alguns golfos são mais pequenos que baías; por exemplo, o Golfo da Venezuela é muito mais pequeno do que a baía de Hudson ou que a de Bengala.

A de Pemba tem a sua beleza, como todas as outras. Mas a beleza não é um conceito absoluto nem objectivo. Depois, como diz o ditado, não há bela sem senão... e a nossa Bela Baía está cheia de senãos, não só na baía propriamente dita, como na cidade que lhe é ribeirinha e lhe dá o nome.

A questão será então decidir se é que interessa se é a maior ou não, ou se é a mais bela ou não. A Baía de Nacala, por exemplo, é uma baía lindíssima, e, essa sim, até tem título de 1º lugar em águas profundas. Como são extremamente belas as de Maputo, Inhambane, Memba, Lunga, e mais todas as outras pequeninas que vão acontecendo aqui e ali ao longo de toda a nossa costa, principalmente no norte do país, como Quissimajulo e Quissiquixe, por exemplo. Ou a Baía de Montepuez, na foz do rio do mesmo nome, onde se situa o Ibo. Importante seria antes assegurar que elas não se degradem, que o seu ambiente seja preservado e que as populações que as habitam e, inevitavelmente, usam os seus recursos, não os destruam e os saibam utilizar em seu benefício. Finalmente, que a sua paisagem seja enriquecida pelos bons tratos que os homens lhes dão.

É desse ponto de vista que interessa analisar a grandiosidade e a beleza da Baía de Pemba: o que se tem vindo a fazer no sentido do desenvolvimento humano e da protecção do ambiente, mais oportunidades de emprego e acesso a fontes de rendimento, melhor saúde, mais e melhor educação, mais e melhor água e saneamento. Ou seja, até que ponto se tem estado a registar evolução nos indicadores de desenvolvimento humano e preservação da natureza.

Entendemos que o enaltecimento das qualidades paisagísticas é um aspecto importante para atrair investidores para área do turismo, e terá sido isso, acima de tudo, que levou à descoberta da imponência da baía de Pemba, até então despercebida. E até teve bons resultados nos primeiros anos que se seguiram à entrada em funcionamento do Pemba Beach Hotel e dos primeiros empreendimentos nas ilhas, nomeadamente Quilálea, Matemo, Medjumbe, Vamizi e Guludo.

A lição a estudar, e que já devia ter franzido alguns sobrolhos responsáveis, é porque é que, depois do primeiro impacto da novidade, os números começaram a baixar dramaticamente, antes mesmo de se começar a fazer sentir o efeito da actual crise económica mundial.

Nos últimos 4 a 5 anos, tem-se vindo a embandeirar em arco em cima de nada mais do que a natureza ainda tem para dar. Por este andar, por pouco tempo. A destruição ambiental e paisagística é de grande dimensão, a especulação sobre a terra vai de vento em popa, de mãos dadas com a distribuição de terrenos em locais imprórios para construção. Construção essa que vai ocorrendo sem a mínima observação de regras ou normas, nem urbanas nem de construção, de fraca qualidade técnica e estética duvidosa. Constrói-se sobre as dunas ou mesmo na praia, não se respeitam os afastamentos mínimos estabelecidos em relação à estrada, nem sequer das moradias em relação aos seus muros de vedação. Não há reservas de estrada, não há espaço para passeios nem estacionamento, e, se for preciso, acaba-se mesmo com a estrada. Áreas devidamente anunciadas como reservas e onde é proibido construir vão sendo ocupadas e vedadas com muros definitivos. Negociantes de pedra para construção escavam cada vez mais as barreiras de calcário e vão vendendo pedra aos montinhos em pleno centro da cidade, a poucos metros do edifício da TVM e em Chibuabuare. O Paquitequete está cada vez mais ameaçado, as marés vivas chegam a sítios onde nunca antes chegaram, porque o braço de mar que rodeia esta pequena península está assoreado e obstruído por lixo e por construções feitas em lugares indevidos. Na baía propriamente dita, e por falta de implementação das leis que até existem, as actividades económicas tradicionais ligadas principalmente à pesca e recolecção de subsistência e ao negócio de materiais de construção (estacas, macúti, cal) colocam cada vez mais pressão nos recifes de coral, nos mangais e nos ecossistemas costeiros. Uma característica realmente única e extremamente bela da cidade de Pemba, a mata de embondeiros que existia entre o Meia Via e a praia de Wimbe, e que devia ter um estatuto de reserva, foi simplesmente destruída, restando apenas alguns exemplares literalmente em vias de extinção. Pemba seria provavelmente a única cidade do mundo a ter uma mata de embondeiros urbana. E essa sim, seria um óptimo emblema da cidade.

Na Praia de Wimbe, aos domingos, e reproduzindo o padrão (boçal) de diversão iniciado na Costa do Sol em Maputo, a rua é literalmente ocupada por carros e motos de todos os tipos e uma vaga de pessoas que ali vão comer galinha e peixe assados no carvão, beber cerveja e o que houver até cair. Multiplicam-se as barracas, os colemans e os fogareiros: não há água corrente, não há latrinas nem casas de banho, as pessoas servem-se da rua para urinar e defecar. Ao lado, a prostituição (também a infantil) instala-se confortavelmente. Algures, um cartaz desbotado e desactualizado, alusivo a mais uma das recorrentes reuniões sobre o tema, anuncia o combate ao SIDA. Mais uma vez aqui, a morte chegará com uma sinistra gargalhada, anunciada em todos os cartazes da nação desde 1976, no invisível vibrião da cólera, no tifo, e agora no HIV. Na selva cada vez menos profunda, nos hospitais de Marririni, estarão justificadas as profecias de todos os curandeiros que foram anunciando que a culpa era dos forasteiros. Noutros corredores estarão justificados mais uns peditórios para acudir aos desastres.

Respeitando o acima anunciado tecnicamente qb, ousarei enunciar que os problemas de que a cidade enferma estão exclusivamente ligados à falta de vontade política, à falta de capacidade técnica na gestão municipal, à falta de uma visão estratégica para o desenvolvimento urbano e territorial, incluindo as suas dimensões social e económica, e ao arrastado problema da indefinição de responsabilidades e jurisdições institucionais. Estas patologias resultam num ambiente tudo menos favorável ao desenvolvimento: não atrai investidores, não desenvolve as pessoas, estabelece uma população doente e destrói o ambiente. O ambiente sócio-político, por sua vez, vai evoluindo no sentido da explosão, com o descontentamento a instalar-se, a criminalidade a crescer, a pobreza a agravar-se e a doença a espalhar-se.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

ZEMÂNTICAS

Pemba, Domingo à tarde. Um tempo assim que não se parece com nada, tudo cinzento e, para nós, locais, frio até. Mas bonito, como sempre. Lido o papel dos Templários na Formação de Portugal, retomei o Pensamento Selvagem, muito a condizer. PoiZé. Se mânticas ou semi (o) logias? O que se vê e o que se não, o que se sente à flor da pele e o que se significa, o que se representa, viagem entre o pensamento e a linguagem, transmissão a outros, figurações do real e do imaginário. Estruturas? O papel das cosmogonias e os símbolos da linguagem como representação de ideologias e do conhecido. Poder, repressão, sempre, assim da Terra como do Céu, porque afinal Deus é uma criação do Homem à sua imagem e semelhança. Daí a projecção do poder terreno para o poder transcendental com a mesma imagem do Hossi, Rei, Imperador, todos eles absolutos no mandar, para essa outra imagem de Poder Total, de cuja Lei a transgressão é punida com o Fogo Eterno. E onde é que não é ou foi assim? Ovo ou galinha? E se não manticássemos? Mendigássemos só. O à e o á ainda a, ou até há. Haja ou não aja? Entropia na comunicação. Comunicar e fazer o mínimo esforço possível no processo? O Maravi, só de nome ao que diz, mandou SMS a dizer que o Silva tapereju nascadara. Está preso na esquadra. Este corresponde a um processo de alfabetização induzido pelo uso das SMS. Naif e belo em si, contendo todo o significado da mensagem, assim mesmo como falado em português, mas lido por quem não conheça a língua e o falar dos donos, é mensagem vazia. Abudo, prepara a garoupa para assar logo: a garoupa foi logo feita. Este revela uma apropriação incompleta da língua estrangeira em que comunicamos. No espaço-tempo e na ambiguidade entre o logo e o já, comemos ao almoço também o jantar. Falamos e escrevemos línguas por empréstimo ou incorporação recente; me lembra mova e xitututu, torotoro, xitimela, xipune e focu, e tantas outras aquisições tecnológicas incorporadas na língua e na linguagem via onomatopeia ou corruptela, que nunca foram confundidas com mais nada porque antes não existiam no nosso universo cognitivo e portanto não faziam parte dos sistemas de comunicação. E portanto não era preciso representar. Mas sistemas de poder havia, e as ideologias em que se expressavam também. Daí o Hossi Deus, no sentido de dever obediência a Algo ou Alguém todo poderoso. Hossi, Mestre, Senhor. Lord em inglês e por aí fora, Seigneur, Signore... Até aqui tudo bem com nossos amigos de escrever linguajares e neles estruturar pensamentos, com mais ou menos emoção, mais ou menos poesia, mais ou menos fáticos. Referenciais meta-qualquer-coisa, artistas da significação, da metáfora e da transposição. Mas, levando as coisas à letra, também não havia então essa dimensão do Deus a solo importada da esfera do oriente médio e seus sucedâneos territoriais. Essa é uma aquisição recente no nosso espaço país. E o Hossi, que já era, passou também a referir o Deus que até aí era dos outros. Tal como, antes, pelos outros. Para nós, antes, os antepassados e os domínios do mágico-religioso. Existia o todo poderoso Hossi, mas Deus não. Mas onde a transposição parece não atingir o alvo, as análises nem sempre precisam de ser completadas, é que havia uma prática de poder que se renovou por continuidade depois do curto (70 anos?) parênteses colonial – os quinhentos são uma desinterpretação conveniente da história –, com meia dúzia de actualizações tecnológicas, incluindo os aparelhos dos sistemas de poder, desde as artes da guerra às da informação. Essa prática de poder e de comunicação incorporou novas tecnologias na sua gestão, e não me ocorre que alguém chame tambor ao celular, nem escola aos processos de iniciação, processos de representação que parecem lógicos e imediatos. Portanto, a transposição do conceito de Senhor, Chefe e os outros para designar Deus significa que, na verdade, eles são uma e a mesma coisa, em qualquer dos casos. Daí para a democracia vai todo um percurso de educação-aprendizagem e cidadania que levará certamente umas gerações, com Deus, mas certamente também com os Hossi das várias longitudes, o que vale a dizer dos vários tempos. Olhe-se a história de África para se ter uma dimensão aproximadamente certa, e não absolutamente errada, do que os Hossi fizeram da terra e dos povos, sem Deus que lhes valha. Medo pragmático ou sintagmático, democratia ou linguística, who cares? Medo! Não sobra espaço para a esperança nem para a democracia L

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Paquite para os amigos

Paquitequete. Porque foi aqui que Pemba começou e se desenvolveu ao seu redor. Antes chamado de ku-Pampira, ou Pampira, segundo se diz por ligação a uma árvore de borracha que por aqui abundaria, a m'pira nome local, e cujo comércio aqui se praticava. Meados para finais de XIX. Quitequete, pronunciando-se ki-té-ké-té, o seu núcleo histórico. Dali se lhe acrescentou ku-Parata, para além de Missete, e ku-Milamba, quando começou a escassear o espaço entre a lângua e o mar.O Paquite seria uma então cidade por si só, assim mesmo como é. Uma cidade do Índico Ocidental, com todas as características culturais pertencentes à faixa costeira que também dá pelo nome de costa Swahili. O Paquite é hoje um importante núcleo urbano-suburbano encravado na cidade que cresceu à sua volta, tendo a baixa e o porto a um passo. Mas mantendo as dinâmicas de outrora, incluindo o porto tradicional de Missete, ou ku-Missete, as práticas comerciais, com os comércios a mudar com o tempo e a tecnologia, o assegurar da ligação entre as ilhas e o interior, o peixe seco por feijão, arroz e milho, os produtos do mar pelos produtos da terra. Mais recente, as electrónicas e bens de consumo de origem vária, vidro salgado e vá-se lá saber o que mais. Compra-se o que se vende, vende-se o que se compra. Procuras e ofertas.
O Paquite está agora ameaçado. Ameaçado por excesso de população, pela construção abusiva em locais indevidos, pela falta de condições de saneamento, pela subida das águas do mar, pelo assoreamento do braço de mar que o circunda. Ameaçado pela tecnologia e pela globalização. E pela total falta de intervenção urbana, protecção ambiental e estratégias alternativas de desenvolvimento humano e educação.
Na mesma medida está ameaçada a cultura mwani, um dos últimos resquícios da cultura do Oceano Índico Ocidental em Moçambique, composta agora por manchas dispersas espalhadas entre Angoche e Palma. Essa mesma cultura qua para aqui migrou no início do século XX e que lá, nas origens, Ohibo, Oibo ou só Ibo, ou mesmo Quissanga, a capital, foi sendo substituída ou assimilada e mesclada pelos novos chegados de Nacala e outros pontos da costa de Nampula que ali estabeleceram as suas bases da campanha sasonal do peixe.
Essa Ohibo capital de uma cultura é hoje objecto de tratamento preferencial por vários interessados em negócios que pouco ou nada têm a ver com as tradições do lugar. Negócios de terra e ruínas, negócios de receber visitantes que são chamados a ver o que já não existe. Ou que mudou de casa. As práticas tradicionais em muitos aspectos restringidas ou proibidas em nome de uma preservação da Natureza que nela não inclui a espécie humana, os seus hábitos e a sua cultura.
Portanto Paquite. Portanto Pemba. Mwanis, macuas e makondes; cotis e nahaaras, ajauas de passagem, e franceses, holandeses e alemães; árabes e portugueses de ontem e de hoje; e chineses também desde há muito. Portanto o norte de Moçambique, do Rovuma ao Bazaruto, da Baía de Palma e sultanato de Túngué passando pela ilha e sultanato de Angoche, e indo ainda além do Chinde e Bons Sinais até à costa de Sofala e mais a sul, ao Cabo das Correntes, também Jangamo, descendo quando os ventos o permitem, voltando quando eles mudam de direcção. No seu tempo, no seu lugar, ao ritmo das marés e das luas, das monções e dos chamados dos muezines para a reza. Em todo este percurso a história chora esquecimento. São lágrimas de pobreza, escorridas no rosto de um povo perpetuado escravo mesmo quando já não é. São lágrimas de ruina do que perdeu função, seja pessoa ou construção outrora com missão. Em todo este percurso permanece no ar o cheiro da fogueira a lenha de mangal, o cheiro do guano dos coqueirais, incensos e especiarias que ainda vão chegando a estas paragens do mar e do tempo.
Não tanto do que tudo isto foi, mas do porque é e do que poderia ou poderá ser, se pretende tratar aqui. Incluindo sugestões de coisas fáceis de fazer a baixo custo e que tanta diferença podem fazer no valor acrescentado. É que os ou podem ser e, dependendo da vontade de fazer. O que foi contará sempre porque é marca característica, carisma e espírito de lugar, em tudo o mais tão épico como a história de todos os outros homens ao longo dos percursos que os fizeram o que são.