sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Paquite para os amigos

Paquitequete. Porque foi aqui que Pemba começou e se desenvolveu ao seu redor. Antes chamado de ku-Pampira, ou Pampira, segundo se diz por ligação a uma árvore de borracha que por aqui abundaria, a m'pira nome local, e cujo comércio aqui se praticava. Meados para finais de XIX. Quitequete, pronunciando-se ki-té-ké-té, o seu núcleo histórico. Dali se lhe acrescentou ku-Parata, para além de Missete, e ku-Milamba, quando começou a escassear o espaço entre a lângua e o mar.O Paquite seria uma então cidade por si só, assim mesmo como é. Uma cidade do Índico Ocidental, com todas as características culturais pertencentes à faixa costeira que também dá pelo nome de costa Swahili. O Paquite é hoje um importante núcleo urbano-suburbano encravado na cidade que cresceu à sua volta, tendo a baixa e o porto a um passo. Mas mantendo as dinâmicas de outrora, incluindo o porto tradicional de Missete, ou ku-Missete, as práticas comerciais, com os comércios a mudar com o tempo e a tecnologia, o assegurar da ligação entre as ilhas e o interior, o peixe seco por feijão, arroz e milho, os produtos do mar pelos produtos da terra. Mais recente, as electrónicas e bens de consumo de origem vária, vidro salgado e vá-se lá saber o que mais. Compra-se o que se vende, vende-se o que se compra. Procuras e ofertas.
O Paquite está agora ameaçado. Ameaçado por excesso de população, pela construção abusiva em locais indevidos, pela falta de condições de saneamento, pela subida das águas do mar, pelo assoreamento do braço de mar que o circunda. Ameaçado pela tecnologia e pela globalização. E pela total falta de intervenção urbana, protecção ambiental e estratégias alternativas de desenvolvimento humano e educação.
Na mesma medida está ameaçada a cultura mwani, um dos últimos resquícios da cultura do Oceano Índico Ocidental em Moçambique, composta agora por manchas dispersas espalhadas entre Angoche e Palma. Essa mesma cultura qua para aqui migrou no início do século XX e que lá, nas origens, Ohibo, Oibo ou só Ibo, ou mesmo Quissanga, a capital, foi sendo substituída ou assimilada e mesclada pelos novos chegados de Nacala e outros pontos da costa de Nampula que ali estabeleceram as suas bases da campanha sasonal do peixe.
Essa Ohibo capital de uma cultura é hoje objecto de tratamento preferencial por vários interessados em negócios que pouco ou nada têm a ver com as tradições do lugar. Negócios de terra e ruínas, negócios de receber visitantes que são chamados a ver o que já não existe. Ou que mudou de casa. As práticas tradicionais em muitos aspectos restringidas ou proibidas em nome de uma preservação da Natureza que nela não inclui a espécie humana, os seus hábitos e a sua cultura.
Portanto Paquite. Portanto Pemba. Mwanis, macuas e makondes; cotis e nahaaras, ajauas de passagem, e franceses, holandeses e alemães; árabes e portugueses de ontem e de hoje; e chineses também desde há muito. Portanto o norte de Moçambique, do Rovuma ao Bazaruto, da Baía de Palma e sultanato de Túngué passando pela ilha e sultanato de Angoche, e indo ainda além do Chinde e Bons Sinais até à costa de Sofala e mais a sul, ao Cabo das Correntes, também Jangamo, descendo quando os ventos o permitem, voltando quando eles mudam de direcção. No seu tempo, no seu lugar, ao ritmo das marés e das luas, das monções e dos chamados dos muezines para a reza. Em todo este percurso a história chora esquecimento. São lágrimas de pobreza, escorridas no rosto de um povo perpetuado escravo mesmo quando já não é. São lágrimas de ruina do que perdeu função, seja pessoa ou construção outrora com missão. Em todo este percurso permanece no ar o cheiro da fogueira a lenha de mangal, o cheiro do guano dos coqueirais, incensos e especiarias que ainda vão chegando a estas paragens do mar e do tempo.
Não tanto do que tudo isto foi, mas do porque é e do que poderia ou poderá ser, se pretende tratar aqui. Incluindo sugestões de coisas fáceis de fazer a baixo custo e que tanta diferença podem fazer no valor acrescentado. É que os ou podem ser e, dependendo da vontade de fazer. O que foi contará sempre porque é marca característica, carisma e espírito de lugar, em tudo o mais tão épico como a história de todos os outros homens ao longo dos percursos que os fizeram o que são.

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