Há 16 anos
quarta-feira, 8 de julho de 2009
ZEMÂNTICAS
Pemba, Domingo à tarde. Um tempo assim que não se parece com nada, tudo cinzento e, para nós, locais, frio até. Mas bonito, como sempre. Lido o papel dos Templários na Formação de Portugal, retomei o Pensamento Selvagem, muito a condizer. PoiZé. Se mânticas ou semi (o) logias? O que se vê e o que se não, o que se sente à flor da pele e o que se significa, o que se representa, viagem entre o pensamento e a linguagem, transmissão a outros, figurações do real e do imaginário. Estruturas? O papel das cosmogonias e os símbolos da linguagem como representação de ideologias e do conhecido. Poder, repressão, sempre, assim da Terra como do Céu, porque afinal Deus é uma criação do Homem à sua imagem e semelhança. Daí a projecção do poder terreno para o poder transcendental com a mesma imagem do Hossi, Rei, Imperador, todos eles absolutos no mandar, para essa outra imagem de Poder Total, de cuja Lei a transgressão é punida com o Fogo Eterno. E onde é que não é ou foi assim? Ovo ou galinha? E se não manticássemos? Mendigássemos só. O à e o á ainda a, ou até há. Haja ou não aja? Entropia na comunicação. Comunicar e fazer o mínimo esforço possível no processo? O Maravi, só de nome ao que diz, mandou SMS a dizer que o Silva tapereju nascadara. Está preso na esquadra. Este corresponde a um processo de alfabetização induzido pelo uso das SMS. Naif e belo em si, contendo todo o significado da mensagem, assim mesmo como falado em português, mas lido por quem não conheça a língua e o falar dos donos, é mensagem vazia. Abudo, prepara a garoupa para assar logo: a garoupa foi logo feita. Este revela uma apropriação incompleta da língua estrangeira em que comunicamos. No espaço-tempo e na ambiguidade entre o logo e o já, comemos ao almoço também o jantar. Falamos e escrevemos línguas por empréstimo ou incorporação recente; me lembra mova e xitututu, torotoro, xitimela, xipune e focu, e tantas outras aquisições tecnológicas incorporadas na língua e na linguagem via onomatopeia ou corruptela, que nunca foram confundidas com mais nada porque antes não existiam no nosso universo cognitivo e portanto não faziam parte dos sistemas de comunicação. E portanto não era preciso representar. Mas sistemas de poder havia, e as ideologias em que se expressavam também. Daí o Hossi Deus, no sentido de dever obediência a Algo ou Alguém todo poderoso. Hossi, Mestre, Senhor. Lord em inglês e por aí fora, Seigneur, Signore... Até aqui tudo bem com nossos amigos de escrever linguajares e neles estruturar pensamentos, com mais ou menos emoção, mais ou menos poesia, mais ou menos fáticos. Referenciais meta-qualquer-coisa, artistas da significação, da metáfora e da transposição. Mas, levando as coisas à letra, também não havia então essa dimensão do Deus a solo importada da esfera do oriente médio e seus sucedâneos territoriais. Essa é uma aquisição recente no nosso espaço país. E o Hossi, que já era, passou também a referir o Deus que até aí era dos outros. Tal como, antes, pelos outros. Para nós, antes, os antepassados e os domínios do mágico-religioso. Existia o todo poderoso Hossi, mas Deus não. Mas onde a transposição parece não atingir o alvo, as análises nem sempre precisam de ser completadas, é que havia uma prática de poder que se renovou por continuidade depois do curto (70 anos?) parênteses colonial – os quinhentos são uma desinterpretação conveniente da história –, com meia dúzia de actualizações tecnológicas, incluindo os aparelhos dos sistemas de poder, desde as artes da guerra às da informação. Essa prática de poder e de comunicação incorporou novas tecnologias na sua gestão, e não me ocorre que alguém chame tambor ao celular, nem escola aos processos de iniciação, processos de representação que parecem lógicos e imediatos. Portanto, a transposição do conceito de Senhor, Chefe e os outros para designar Deus significa que, na verdade, eles são uma e a mesma coisa, em qualquer dos casos. Daí para a democracia vai todo um percurso de educação-aprendizagem e cidadania que levará certamente umas gerações, com Deus, mas certamente também com os Hossi das várias longitudes, o que vale a dizer dos vários tempos. Olhe-se a história de África para se ter uma dimensão aproximadamente certa, e não absolutamente errada, do que os Hossi fizeram da terra e dos povos, sem Deus que lhes valha. Medo pragmático ou sintagmático, democratia ou linguística, who cares? Medo! Não sobra espaço para a esperança nem para a democracia L
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário